quarta-feira, 31 de março de 2021

A noite

A noite olhou e sorriu de repente

chorou  e partiu ...

A noite esqueceu as mágoas

não guardou rancor e sentiu

o amor num momento de paixão

è um vulcão em erupção

A noite pode - se ver as estrelas

abraçar o mundo e o mistério

se rei do sonho ao olhar o céu

ver a tua alma a voar enquanto

estás a sonhar ...
 

Eis o Amor

Este  pò eis o amor onde buscar- te

e viver - te e amar  - te  sem principio

nem fim  na eternidade neste breve

instante em que fito o teu olhar e cavalgo

o infinito dos teus quadreis de noite e claridade ...
 

IIMAGEM

 Imagem  de navio roda

gume de sonho da

 alvorad ou secreta subtil

substância viva que projecta

na eternidade  este eco este

lume de plasma em chama

glória que resume nossa

 efémera carne e projecta

dardo de ferrão em busca

de outra meta além de nòs

dois vértice cume ...




Rio Turvo

Rio turvo claro se perguntares

verme ou deus que ès que foste

nem que ventos e marés vieste

ò meu amor è inútil tentares

saber ignora o que amaste

passou em fogo a aurora

sabes quem sou e sabe - o

esta flor ...
 

Existem mares dentro desse mar


 Existem mares dentro desse mar

corro pela baìa o corpo a brancura

do cèu as nuvens no esplendor da água

o amor as vozes tem um sabor a dor

por tudo aquilo que fica por explicar

e dizer desde o acto racional ao sonho

ao silêncio dos cobardes do enigma

da vida e do amor ...

Por isso nos amamos

Por isso nos amamos

cegos e surdos nos buscamos

buscando insaciáveis esta flor

em lume a clara face já sonhada

nos peixes e répteis terciários

era um homenzinho impressionante

de cara apavorado e oferecia - nos

brinquedos de plástico ... 

 

Sò trazemos Liberdade

Sò  trazemos liberdade e alegria

erectos na proa jovens deuses

terrestres e ocêanicos ... somos

espuma a chuva de esmeraldas

os rubis  translúcidos em nossos

rostos e  de relâmpagos saltando

da espessura do granito do aço

dos nossos corações ...
 

Quando olhas para minha dor


 Quando me fitas na dor e no silêncio

as malhas teço com que me sepulto

porquê de tantos muros de tão espantosas

muralhas a separar - nos ... na vida na morte

onde eu estiver estarás sempre comigo e o resto

não será mais verás que um bicho maravilhoso

espera a primavera em seu casulo ...

Não te perguntei ...


 Não te perguntei se alguma vez

esperaste as minhas palavras o 

meu barco  atè este vento  ardente

atè ti reclino o meu rosto na 

madrugada que nasce incendiado

nos teus olhos ....

Sonhar - te

Sonhar - te  os  abismos

e os morcegos volvem - se

em arcanjos e vêem cegos

quando os vês pousar na tua

mão ... sò em ti a beleza

 encontra  forma ... cantas

e logo a noite se transforma

no dia que faltava a criação ...
 

O POETA

   O  poeta seara e nuvem

barco de melodia no coração

das feras e das  aves  abrindo

a noite barco e melodia lírio

solar estrada e cotovia jamais

sonhado pelas próprias aves

a morte e a vida a porta e a chave

tudo em ti se confunde e anuncia ...
 

terça-feira, 30 de março de 2021

Igualdade

Não somos descendentes

de  um mistério nem lhe

vamos descobrir o conteúdo

todos os dias um livro grita

e pela frente há imenso caminho

a percorrer toda gente quer ser

feliz nesta cratera o último a sair

deixe a porta aberta ...


 

Poetas Intocáveis

Magoam - me cansam - me os poetas intocáveis

os depuradores de palavras os detentores de enigmas

que apenas consideram poesia o ilegível o indizível

o inatingível segredo confinado pelo seu deus privado

e  abençoado homens a quem dos outros ou fiéis aos  

seus no dia  que alguém me convença que isso è verdade

espero não estar vivo farei o mesmo que Einstein faria

a sua forma antes de saber o seu destino engolo o poema  

e abdico da poesia o ser humano simples  não è incompatível

com o ser humano profundo ...
 

Os teus vestidos

Deixa - me morder - te  os ossos

e cheirar a tua carne  desses  teus

braços delicados que me deliciam

sussurrando ao ouvido quero amar 

- te  libido que massajam os dedos

quero bastante amor cheio de sabor

deixa - me soprar - te nos olhos

atè deixares de ver todos os teus

vestidos tem folho e  mais nada

te direi ...
 

Zona proibida

Para  là de qualquer zona proibida

há um espelho para nossa transparência

è um segredo deixa - me trincar e saborear

o ferro que carregas no sangue pois aquilo

que eu deixo de provar saboreio melhor

que ninguém tal como aquilo que não

faço tambèm faço melhor que alguém

aquilo que não vejo às vezes faz - me

sentir bem ...
 

Praia

Uma praia sem beira  e a beira

do final escrevo o que te digo

como escrevo o que me apetece

o amor não è digno sem uma

 discussão que aquece abraçar - me

o medo de te perder para não caíres

na vertigem de ficares em mim olha -

- me com os teus olhos de ver e sorria

do principio ao fim ... a pequena viajante

morria a explicar a sua morte sábios animais

nostálgicos visitam seu corpo quente ...
 

Não digo


 Não digo o não  dito

apenas cerco - me dos

outros e para mim tomo

a minha própria paga

e dizer tambèm  que caminho

numa pàtria ocupada

mas algo recorda - me sò em mim

exilar - se toca - me o ego perdendo

as vezes a calma a  discussão è passageira

numa relação normal ...

OLHAR

Esses  olhos brilhando na noite

estas palavras como pedras preciosas

na garganta viva de um pássaro petrificado

este verde muito amado està là quente este

coração sò misterioso a explicar em palavras

deste mundo que partiu de um barco levando

- me aquele por quem chamas dia e noite ...

AMIGO


 Seja  passado ou futuro

seja fuga ou remorso

de um amigo para amiga

se nunca estou contigo

já  não sei estar comigo

que amigo sem amiga

nem a vida se dà todo

seja distância cansaço

ora eterno ou efémero

ou coração sem abrigo

que amigo sem amiga

nem na morte sabe tudo ...

Sentidos


 Cinco  sentidos bailam a cabra cega

à tarde là no meio um sexto de olhos

vendados  è o que vê melhor à noite

a sensibilidade ainda um sètimo a arte

delimitando o espaço invesìvel  com

um circulo mágico em redor começa a

 crescer um âmago a partir de dentro

e a poesia não mete medo não come

sonhos ...

A POESIA

A  poesia não mete medo não  come sonhos

è uma vertigem muito alta de água e luz

pode ir atè sempre pode aninhar - se na

posição de feto dentro dos nossos corações

pode transformar - se em pò na manhã seguinte

para voltar a construir um jogo diferente vida

amor e morte a pirâmide ...
 

Silêncio

Não  seja noite nem dia

somente aja silêncio

na cidade morta e suave

me toques e beijes na fronte

para que eu sò saiba que ès

chegada  não haja galos a anunciar

  - te nem ladrem cães pelas esquinas

somente uma estrela no fundo de mim

e um vento macio correndo as ruas ...
 

O VENTO

Há que salvar o vento

os pássaros queimam

o vento nos cabelos

da mulher solitária

que regressa da natureza

e tece tormentos ... há que 

salvar o vento ...
 

Là em baixo

Là em baixo anónimos  pescadores

esquecidos de domingo esperam

talvez por um tempo impossível

em que os peixes saltarão do aquário

enfim livres da sua prisão de cristal

enfim livres e aniquilados arfar de

 felicidade tivesse o pequeno peixe

transparente saltado  ao menos

do seu aquário ...
 

Desenhos

Faço desenhos no chão

e deixo o tempo passar

alívio a respiração sò

para acalmar - me como

frutos sem sabores da árvore

da vida e sustento as minhas

dores agora a deslizar na minha

bicicleta como tudo è suave mente

desesperante mente o seu remédio

sem remèdio  ...
 

O TOQUE


 Toca - me no ego

massajando - me a pele

a alma de um amor que è

cego perdendo as vezes

a calma a discussão è passageira

numa relação normal entre palavras

e segredos depende a minha disposição

histórias e enredos entre o sol e a solidão

encontro - me perdido de amores e traições

que me dão abrigo ...

AMIZADE

Apenas a amizade

se lembra do amor

ouve esta canção

è moderna

 sò por sertão antiga

apenas a amizade se lembra

do amor

a paixão partiu leve

deixou o voo livre

e a solidão ficou

para se povoar a luz 

na sombra ...


 

Acaso

A caso soubeste conhecer - me  no fundo

onde começo onde estou onde estou talvez

pudesse enfim rubro saber - te simétrica

a metade que faltou ao rosto radioso atormentado

que somos e agora que surgiste através deste espelho

estilhaçado e face com a imagem confundir - te que posso

eu amor dizer - te  ... inacabado o sonho è um punhal de

fogo em riste ...
 

Aqui


 Aqui  respiro  ... aqui amo e procrio

ratos peixes por vezes um deus

aqui morro e renasço ergo os céus

e a terra do futuro que anuncio na noite

da caverna o meu navio ganhou asas

celestes e são tuas meu amor e são teus

os continentes o mar e o cèu que nos 

percorrem surdos e velozes rios

aqui morro e renasço ergo aos céus

e a terra ...

Rosto

Contigo  assim o pò vive

flutua no universo assombra

no fundo o rosto assim crescemos

nòs no mundo e do nada chamamos

o existir assim transformamos e criamos

nòs suas criaturas frágeis ramos homens 

ou deuses que hão - de vir ...
 

Relâmpago


 Relâmpago  que explode e vara  o universo

lado a lado ou na colmeia simples mecanismo

de produção será fóssil vivo da aventura para 

sempre desterrada enxada escavadora tractor

água pedra cimento ferro betão aço contigo

construo  sem cansaço arremesso - me  dardo

para lua com ossos carne nervos ergo a tua

 formosura na essência te refaço sem descanso

da morte hera enlaço - me contigo assim o pò

vive flutua no universo assombra no fundo ...

Amar - te

Amar - te è construir - te aéreas raízes

instrumentos da liberdade incandescentes

remorsos  incandescentes remos com que

mover no caos o pensamento e buscar o que

somos e seremos boca nas trevas hélice no

 vento verde proa no mar de tormentos em 

que nascemos submersos de raiva e de tormentos

enervados canais do que sabemos e ignoramos caule

na floresta mineral rubro o que nos resta semear no

 cosmo a aventura terrestre ...


 

LIBERDADE

Grávida de um futuro  de comum

liberdade convir - lhe - ia a resignação

aos dedos do registo deixado assim deixado

assim de uma hora para outra de se saber ainda

 amante de premente amor pois segundo a

 contagem de empregado deveria afastar - se do

 recinto onde quem procura encontra o que è 

encontrado ...
 

segunda-feira, 29 de março de 2021

Desejar a lua


 Todas as casa deveriam ter uma varanda

virada para o mar uma janela um parapeito

um olhar ... quão difícil se torna desejar a

lua de uma noite sem sentido sobre o sol

sem luz da alma cativa que  encerra no

silêncio do teu fogo cintilante.. assim

estou eu sem estar mesmo no poema sò 

suspiro clamo ou grito como uma árvore

escarnecida que projecta no espaço a

 suplicante nudez de braços ressequidos

tambèm traça o percurso da ave migratória

que a primavera trás em obediência a esse

circulo vital de solar velùpia ...

CASAS


 Todas as casas deveriam ter 

uma varanda virada para o mar

para que as manhãs acordassem

 no volume inquieto da claridade

as sombras fundeassem frescas

pelas paredes opacas do meio - 

 - dia  e o entardecer  rebetasse

 -sem sota - ventos  num quarto ...

Viagem

Viagem não conheço não  sei

do outro amor não sei do outro

pais ... ò meu amor feliz ou infeliz

porque me escondes a minha própria

imagem os passos de outono respiram

na tonalidade das gaivotas e nos contornos

lisos da manhã componho e descomponho

os gestos do meu olhar nos teus olhos

ergue - se a maresia ...
 

Campos


 Gozo  os campos sem reparar para eles

pergunta - me porquê porque os gozo

e eu respondo gozar uma floresta è  estar

inconsciente ao pè dela e ter a noção exacta

do seu perfume nas nossas ideias mais apagadas 

quando reparo não gozo fecho os olhos è o meu

 corpo que està entre a erva aqui somente a sede ardente e a fonte para matà - la aqui céu horizonte 

e  o fogo a fuga a súbita viagem ...

AMOR E POESIA


As  Vozes do Silêncio Preto no Branco Poetry Flowers  as palavras que doem em silêncio

Poemas embutidos em Flores dedicados a  Ana  Pereira por Fausto Fonseca


No olhar que repouso no teu sorriso há toda uma geografia geografia do meu corpo que procura

um rio inquieto e improvàvel onde desaguar os sentidos ...

 

O Perfume da Magnòlia

Espanta - se    desfaz - se

na claridade  marítima

dos teus  seios

quando o perfume

das magnólias è possível

cúmplice do vento  que

se abriga nos meus olhos

numa lágrima de ternura

por onde começar ...
 

O começo


 Por  onde começar

quando a cor de um

poema è um rumor

de sal que agarra aos

 meus dedos

quando o brilho

da lua

è um fio de maresia

que erra ... explora ...

Pólen


 Pólen levado pelo vento

mãos impróprias sujas

do carvão do desejo

que não rasgo na minha

pele sobre um lápis

interrompido  na promessa

de um beijo ...

Escrevo

Escrevo - te tantas vezes quantos

nocturnos vazios entre as estrelas

os quebrantes do mar aos pès

 prateados da lua e a intuição  anunciada

na respiração dos dedos dos anjos nunca

deixes de me escrever ...
 

Cartas

Na pausa de um beijo

deixar - te - ei esta

carta num recanto

da tua pele .. escrevo -

- te tantas vezes como

o percurso das formigas

o ritmo do girassol devolvido

a condição de flor e o reflexo

das nuvens no lado interior

dos rios guardados na minha

mão ...
 

Se eu soubesse

Se eu soubesse às palavras

o rumor lento e raso

dos teus dedos sagrar o ritmo

das confidências no crepúsculo

de um poema e silenciar as esperas

na última pausa ...
 

Manhãs Sobmersas

Quero  manhãs submersas sem

adjectivos a manhã chegou à

janela do meu quarto e entrou

trazia em braços de gritar e mimosas

e um raio de sol nasceu no meu sorriso

que ainda sonhava o teu corpo num beijo

nestas mãos que se agarram os dias como

 uma paisagem frágil de papoila a maresia

 na curva de um poema  os contornos opacos

 do vento no último acorde  de um cello   o

retorno impaciente ternura dos teus olhos e 

nessa geografia de invisíveis plenitudes

 abre - se  um par de asas quebranto de tempo ...
 

Claustros

Não há claustros em amor

os teus olhos e o vento

entrego a espada do tempo

pelo sonho e porque não há

claustros em amar as tuas mãos

quero a formiga incansável de

ternura ...
 

Mãos em Árvores

Mãos  em árvores raìzes de sonho

que nos silenciam na queda de uma

folha mão que abre o silêncio de um

beijo mãos que cantam o quebrante

 de olhares mãos flores chuva pássaros

que na minha alma esquecem - se a voar ...

  
 

Claridade Maritima

Espanta - se  e se  desfaz  na claridade 

marítima dos teus seios quando o 

perfume das magnólias è um possível

cúmplice do vento que se abriga nos

meus olhos numa lágrima de ternura

por onde começar ... no olhar que 

repouso no teu sorriso há toda uma

geografia do meu corpo que procura

um rio inquieto e improvável onde

desaguar os sentidos e um cispre

sempre sombra para prender o rumor

dos dedos como quem agarra o vento

no pressentimento de um beijo  lugar

estaleiro de ternura è o meu corpo no teu ...
 

Floresta

Gozo   os campos sem reparar para eles

pergunta -me porquê  porque os gozo

e eu respondo gozar uma floresta è estar

inconsciente ao pè dela e ter uma noção

do seu perfume nas nossas ideias  mais

apagadas ...
 

Hà sò tu

Há  sò tu  jà não canto

è um encanto ouvir

um passarinho e já

não digo è tão bonito

ficares a olhar para tua

esperança ... ès tu que

escreves sò tu me deixas

o que guardo no esconderijo

do meu ouvido ... há sò tu ès

tu que escreves deixei de escrever

jà estava tudo quando peguei nisso

foi a mim que muito me escapou sò

em ti o secreto tesouro o musgo e âmago ...
 

uma brisa

suave e fresca se inebria em mim algo itinerante e sinto - me estranhamente universal num sonho perdido no sonho tenho o passaporte do além ...