esse nobre coração que bate dentro de ti no meu
são belas as flores mas decapadas lançadas na
tempestade do deserto no caos da agonia feita êxtase
esse nobre coração que bate dentro de ti no meu
são belas as flores mas decapadas lançadas na
tempestade do deserto no caos da agonia feita êxtase
nenhuma luminosidade
jamais me cegou como
a curvatura do ventre
que tornou a própria
perda na mais preciosa energia do começo
o sonho e o rumo
que na terra persigo anelante o melhor de nòs
e da vida luz multicolor de viver com asas
de ave branca pomba imaculada sem deixares
de ser leoa tão felina com o odor que me envolves
tão maligna como o amor com que me dilaceras com
os teus olhos anos de cabelos revolta arquitectura
projectada arte e corpo pedaços de terra vermelha
a leoa que inventei sem deixares de ser pomba que
cruza a atmosfera do sonho que irrompe da irrealidade
e com quem vive numa ilha inventada
por quem fico noite e dia a tua espera
sempre para là do sonho em suma
o rumo e o sonho
no espaço a suplicante nudez de braços
ressequidos a ave migratória que a primavera
trará quem me livra de mim de quem sou por
continuar a ser o que ainda não ès ... ainda ?
que fujo de mim em ti fogo cintilante ave branca
cujo voo se espraia no desejo com perfume odor
felino de fêmea apetecida cm mãos invesìveis
membros de espuma sem nenhuma cor das que
jà foste
da madrugada um sonho tingido
de crèdula esperança ele diz que
esta sem estar sò dividido
no espaço marcado pela insónia
em insónia o universo da insónia
no túnel estreito da insónia
poema
por seres luz
sangue e dor
um suave vento no meu rosto
o selvagem cheiro de amor
os corpos a voaram imaterias
como o fogo que não agarramos
mas queima dir -se - ia que o amor
se è que passou fere ainda mais
do que quando realmente encandeia
sangrento e sagrado quando falo da minha
pàtria danificada por uma funesta e ordinária
poeira sinto os músculos de bronze incandescente
como se de algum modo ela em mim se escarnasse
numa muralha opaca
mas tão vaga e acinzentada
que esse espaço imaginado
de branca identidade não
è mais que um aceno à possível liberdade
para além da sua glória perfumada
são estes os meus semelhantes e decerto
o são porque respiramos a mesma poeira
mas para eles è o único espaço de existência
e para mim o espaço que deverá ser purificado
por um vento que ignoro de onde virà
passamos uns pelos outros em anónima coexistência
em passos que sendo são equivalentes a não serem
sò os amigos quebram esta monótona identidade
com acenos de uma comunidade viva que não
somos chamamos a esta coexistência sociedade
que não è mais do que ter perdido a pàtria
a sua fisionomia sagrada as suas maternas coxas
oh em que muralhas està a oblíqua desse seio de água
regeneradores que eram a presença viva da vida unificada
pelo rosto fora vindas do fundo
do coração sem que eu as tenha
forçado essas lágrimas por ti em
mim dentro de mim a escorrer
chamo amor de profundas veias
a essa relação entre nòs se ela
houvesse e não esta condição
de anónima indiferença e de
vaga identidade flutuante
sem cúpula e sem os templos brancos com jardins
de um ócio voluptuoso è por isso que estamos
condenados a solidão de não pertencermos a dilatada força
que constitui um universo e projecta um horizonte
de humanidade viva em floração unânime somos apenas
cúmplices da nossa inabilidade e dos ornamentos com
que a revestimos para parecer que somos e ser o que parecemos
mas esperar
naquelas horas emaranhadas
cheias de serpentes quando
a alma me caìa e eu me afogava
tu vinhas aproximando
tu vinhas nua e arranhada
tu chegavas ensanguentada
ao meu leito
minha noiva
e então caminhávamos toda a noite
dormindo e quando acordávamos
estavas intacta e nova como se o vento
grave dos sonhos acendesse de novo
o fogo da tua cabeleira e em trigo e prata
submergisse teu corpo atè torna - lo
deslumbrante
eu não sofri meu amor
esperava - te apenas
tu precisavas de mudar de coração
e de olhar depois de tocares a profundo
zona do ar que o meu peito te entregou
precisavas de sair da água pura como
uma gota erguida por uma onda nocturna
minha noiva tu precisaste de morrer e de nascer
eu esperava - te
não sofri a procurar - te
sabia que virias mas outra como o que adoro da mulher
que não adorava com os teus olhos tuas mãos tua boca
mas com outro coração que amanheceu a meu lado
como se sempre estivesse estado ali para continuar
comigo para sempre
era doce e selvagem entre o prazer e o sono entre
o fogo e a água os nossos sonos se uniram talvez
muito tarde no alto ou no fundo em cima como ramos
que um mesmo vento agita em baixo como vermelhas
raìzes que se tocam o teu sono separou - se talvez do meu
e andava à minha procura pelo mar escuro como dantes
quando ainda não existias quando sem te avistar naveguei
a teu lado e os teus olhos buscavam o que agora pão vinho amor e
cólera te dou às mãos cheias porque tu ès a taça que esperava os dons
da minha vida dormi contigo toda a noite
enquanto a terra escura gira com os vivos
e os mortos e ao acordar de repente no meio
da sombra o meu braço cingia a tua cintura
nem a noite nem o sono puderam separar - nos
dormi contigo e ao acordar a tua boca saída do sono
trouxe - me o sabor da terra da água do mar das algas
do âmago da tu vida e recebi o teu beijo molhado pela
aurora como se me viesse do mar que nos cerca
passeia o teu olhar pelos
meus recantos e assim
o desejas dou - te a alma
inteira com suas brancas
avenidas e canções
amigo faz com que na tarde
se desvaneça este inútil e velho
desejo de vencer
bebe do meu cântaro se tens sede
amigo faz com que na tarde se desvaneça
este desejo de todas as roseira me pertencem
amigo se tens fome come do meu pão
tudo amigo o fiz para ti tudo isto sem olhares
verás a minha casa vazia tudo isto que sobe pelos
muros direitos como o meu coração sempre buscando
altura
sorris - te amigo que importa !
ninguém sabe entregar nas mãos
o que se esconde
eu dou - te a alma ânfora de suaves nèctares
e toda eu ta dou menos aquela lembrança
que na minha herdade vazia aquele amor
perdido è uma rosa branca que se abre em
silêncio
e que no sono eles dissipem as trevas como
um duplo tambor combatendo no bosque
contra o espesso muro de folhas molhadas
nocturna travessia negra do sono interceptando
o fio de uvas terrestres com pontualidade
dum comboio desvairado que sombras
e pedras frias sem cessar arrastasse por isso
amor prende - me o movimento puro à tenacidade
que em teu peito bate com a aste dum cisne submerso
para que as perguntas estreladas do céu responda como
uma única chave com uma única porta fechada pela sombra
há maiores do que tu maiores
há mais puras do que tu mais puras
há mais belas do que tu mais belas
mas tu ès a rainha
quando andas na rua ninguém te reconhece
ninguém vê a tua coroa de cristal ninguém
olha a passadeira de ouro vermelho que pisas
quando passas a passadeira que não existe
e quando surges todos os rios se ouvem
no meu corpo sinos fazem estremecer o céu enchendo - se
o mundo com hino sò tu e eu meu amor o ouvimos
nada contava nem tinha nome
o mundo era o ar que guardava
caminhei salões cinzentos
túneis habitados pela lua
hangares cruéis que se despiam
perguntas que teimavam sobre
a areia tudo estava vazio morto e mudo
caído abandonada e abatido
tudo era inaliàvelmente alheio tudo era
de outros e de ninguém atè que a tua beleza
e a tua pobreza encheram o Outono de presentes
ainda que não me queiras estrela
cadente há dias que nos separam
e ficamos ainda mais juntos no amor
em nòs
pois que desta vida pequena
que arrasto entre os naturais
dizer que valera a pena
se a grã turba ou branda avena
não dizessem mais e mais
lua de marés vale de enseadas
ancorado no cais da madrugada
rios de sonho cor de marfim !
meu amor a máscara dura e o
trompete a soar sem o trompetista
as cadeiras a rangerem sem ninguém !
doce mão de repouso extremo abrigo
de um coração opresso que ao ligeiro
prazer nega no seu seio acesso
com o verbo amar em dias
repentinos a voar sò tu ès
eterna em mim neste amor
que tanto desejo !
por ti sem ti neste amor
que sinto por ti os dedos
percorrem as linhas semeando
as palavras e depois seguem
viagem
o tempo sò è válido em ti
a vida a esperança o desespero
a morte sò tu lhe dàs realidade
sò tu ès o fluir !
e nos destrói dos teus seios dois cachos
de brancas glicìnias ou uvas azuladas
pejadas de glória anelantes nos básicos
dos mamilos pérolas aveluadas pétalas
do teu ventre de ninfa que nimba
eu que tanta dor assisti quando nem mesmo
existia tanto alto sonho nutri que posto a cantar
me ouvi a imensa heresia alegria
è rito de exorcismo inacabado
por dentro do sonho verde como
se o destino se afirmasse numa
fulgurante nudez de matéria projectada
no rosto indelével da vitória necessário
será o silêncio pelos bosques incendiados
viajo neste lugar incendiado das coisas
cada palavra combate a ignorância das
coisas que hão - de mudar no momento
exacto da partida resoluta sempre toda uma nova
imagem que è inverso ao caminho percorrido
e caminhar para trás na distância das nossas vidas beijo
a beijo retirando de um lugar que demos sem alegria
descobrindo no outro o caminho secreto que aproxima
os teus pès dos meus e assim formas a ver na minha boca
a planta insatisfeita estaremos sempre sozinhos estaremos
sempre sozinhos tu e eu sozinhos na terra para começar
a vida e assim beijam a vida os nossos beijos todo o amor
se encerra toda a sede termina em nosso abraço aqui estamos
agora frente a frente encontràmo - nos não perdemos nada
percorre - mo - nos lábio a lábio mil vezes trocamos entre nòs
a morte e a vida tudo o que trazíamos quais mortas medalhas
atiràmo - lo ao fundo do mar tudo o que aprendemos de nada serviu
começamos de novo morte e vida e aqui sobrevivemos puros como
a pureza que criamos que criámos mais largos que a terra que não pode
extraviar - nos eternos como o fogo que arderá enquanto durar a vida
vem com um homem
às costas
vem com homens nos teus cabelos
vem com mil homens entre os seios
e os pès
vem com um rio
cheio de afogados
que encontra o mar furioso
a espuma eterna o tempo
trà - los todos atè onde não te espero
estaremos sempre sozinhos
estaremos sempre sozinhos tu e eu sozinhos
na terra para começar a vida
o que será não sei
procurei sabe - lo em dicionários
antigos e poeirentos e noutros
livros onde não achei o sentido
desta doce palavra de perfil ambíguos
dizem que azuis são as montanhas como
ela que nela se obscurecem os amores
longínquos e um nobre amigo meu das estrelas
a nomeia num tremor de cabelos e mãos
hoje em Eça de Queirós sem a cuidar a descubro
seu segredo se evade sua doçura me obceca
como uma mariposa de estranho e fino corpo
sempre longe tão longe de minhas redes
tranquilas saudades
ò vizinho sabe o significado desta palavra branca
que se evade como um peixe ?
não e me treme na boca seu tremor delicado ... saudade
de imagens mais enorme em ti se dissolveu
o mundo carregado de amor e solidão a verdura
das árvores ardia
num país sem nome
ou numa terra nua
por maior que seja o desespero
nenhuma ausência è mais funda
que a tua
e de querer - te a não querer - te chego
e de esperar - te quando não te espero
passa o meu coração do frio ao fogo
quero - te apenas porque a ti eu quero
a ti odeio sem fim odiando - te te suplico
e a medida do meu amor viajante è não
ver - te e amar - te como um cego
consumirás talvez a luz de Janeiro
o seu raio cruel
o meu coração inteiro roubando - me a chave
do sossego
nesta história apenas eu morro e morrerei de amor
porque te quero amor a sangue e fogo
sem comer calado não me sustenta o pão
a aurora me desconcerta busco no dia
o som líquido dos teus pès estou faminto
do teu riso saltitante das tuas mãos cor
do furioso celeiro tenho fome da pálida
pedra das tuas unhas quero comer a tua
pele como uma intacta amêndoa quero
comer o raio queimado da tua formosura
o nariz soberbo do rosto altivo
quero comer a sombra fugaz das tuas mãos
e faminto venho e vou farejando o crepúsculo
à tua procura procurando o teu coração ardente
como uma puma na solidão de Quitratue
boca fruta minha destes dias velozes
diz - me sempre estiveram comigo
por anos e viagens e por luas e sòis
e terra e pranto e chuva e alegria
ou sò agora brotam das raìzes com água
que à terra seca traz germinações de mim
desconhecidas ou aos lábios do cântaro esquecido
na água chega o sabor da terra ?
não sei não mo digas tu não sabes ninguém sabe estas
coisas mas aproximando os meus sentidos todos
da luz da tua pele desapareces fundes - te como o ácido
aroma de um fruto e o calor de um caminho o cheiro
do milho debulhado a madressilva da tarde pura os nomes
da terra poeirenta o infinito perfume da pàtria magnólia
e matagal sangue e farinha galope de de cavalos a lua poeirenta
das aldeias o pão recém - nascido ai tudo o que há na minha boca
volta ao meu coração volta ao meu corpo e volta a ser contigo
a terra que tu ès tu ès em mim profunda primavera volta a saber
em ti como germina
as minhas asas da minha
boca chegará atè ao céu
o que dormia sobre a tua alma
ès em ti a ilusão de cada dia
como o orvalho tu chegas
chegarás às corolas minar
o horizonte com a tua ausência eternamente
em fuga como a onda eu disse que o vento
ia cantando como os pinheiros e como os mastros
como eles tu ès alta e taciturna e ficas logo triste
como uma viagem acolhedora como um velho
caminho povoando - te ecos vozes nostálgicas
eu acordei e às vezes emigram e fogem pássaros
que dormiam na tua alma
tocar beijar e abraçar - te
o teu corpo foi esculpido
desenhado asas a colorir
na tua pele desenho asas
a colorir na tua pele
suave e fresca se inebria em mim algo itinerante e sinto - me estranhamente universal num sonho perdido no sonho tenho o passaporte do além ...