domingo, 10 de julho de 2022

são belas as flores

o teu coração è muito mais belo que as flores

esse nobre coração que bate dentro de ti no meu

são belas as flores mas decapadas lançadas na

tempestade do deserto no caos da agonia feita êxtase


 

tu ès o sonho

eu sou o rumo

nenhuma luminosidade

jamais me cegou como

a curvatura do ventre

que tornou a própria


 perda na mais preciosa energia do começo

o sonho e o rumo
 

o teu ser perdido

como sendo esse sol de energia fulgurante

que na terra persigo anelante o melhor de nòs

e da vida luz multicolor de viver com asas

de ave branca pomba imaculada sem deixares

de ser leoa tão felina com o odor que me envolves

tão maligna como o amor com que me dilaceras com

 os teus olhos anos de cabelos revolta arquitectura

 projectada arte e corpo pedaços de terra vermelha

a leoa que inventei sem deixares de ser pomba que

cruza a atmosfera do sonho que irrompe da irrealidade


e com quem vive numa ilha inventada

por quem fico noite e dia a tua espera


sempre para là do sonho em suma

o rumo e o sonho



 

tu

ès a árvore escarnecida que projecta

no espaço a suplicante nudez de braços 

ressequidos a ave migratória que a primavera

trará quem me livra de mim de quem sou por

continuar a ser o que ainda não ès ... ainda ?

que fujo de mim em ti fogo cintilante ave branca

cujo voo se espraia no desejo com perfume odor

felino de fêmea apetecida cm mãos invesìveis

 membros de espuma sem nenhuma cor das que

jà foste
 

o poeta

è alguém tocado pelo sonho

da madrugada um sonho tingido

de crèdula esperança ele diz que

 esta sem estar sò dividido

 no espaço marcado pela insónia

em insónia o universo da insónia

no túnel estreito da insónia


 

Pomba e Leoa

quero que permaneças

poema

por seres luz

sangue e dor

um suave vento no meu rosto

o selvagem cheiro de amor

os corpos a voaram imaterias

como o fogo que não agarramos

mas queima dir -se - ia que o amor

se è que passou fere ainda mais


do que quando realmente encandeia
 

à minha raiva

è santa e implacável o meu virtuosismo

sangrento e sagrado quando falo da minha

pàtria danificada por uma funesta e ordinária

poeira sinto os músculos de bronze incandescente

como se de algum modo ela em mim se escarnasse


 

quem escreve

procura abrir espaços

numa muralha opaca

mas tão vaga e acinzentada

que esse espaço imaginado

de branca identidade não


è mais que um aceno à possível liberdade

para além da sua glória perfumada


são estes os meus semelhantes e decerto

o são porque respiramos a mesma poeira


mas para eles è o único espaço de existência

e para mim o espaço que deverá ser purificado


por um vento que ignoro de onde virà


passamos uns pelos outros em anónima coexistência

em passos que sendo são equivalentes a não serem


sò os amigos quebram esta monótona identidade

com acenos de uma comunidade viva que não 


somos chamamos a esta coexistência sociedade

que não è mais do que ter perdido a pàtria


a sua fisionomia sagrada as suas maternas coxas

oh em que muralhas està a oblíqua desse seio de água


regeneradores  que eram a presença viva da vida unificada
 

Poemas escritos

com as lágrimas a escorrerem

pelo rosto fora vindas do fundo

do coração sem que eu as tenha

forçado essas lágrimas por ti em

mim dentro de mim a escorrer

chamo amor de profundas veias

a essa relação entre nòs se ela

houvesse e não esta condição

de anónima indiferença  e de

vaga identidade flutuante


sem cúpula e sem os templos brancos com jardins

de um ócio voluptuoso è por isso que estamos


condenados a solidão de não pertencermos a dilatada força

que constitui um universo e projecta um horizonte 


de humanidade viva em floração unânime  somos apenas

cúmplices da nossa inabilidade e dos ornamentos com


que a revestimos para parecer que somos e ser o que parecemos 
 

tu vinhas

não me fizeste sofrer

mas esperar

naquelas horas emaranhadas

cheias de serpentes quando

a alma me caìa e eu me afogava

tu vinhas aproximando

tu vinhas nua e arranhada

tu chegavas ensanguentada

ao meu leito

minha noiva


e então caminhávamos toda a noite

dormindo e quando acordávamos


estavas intacta e nova como se o vento

grave dos sonhos acendesse de novo


o fogo da tua cabeleira e em trigo e prata

submergisse teu corpo atè torna - lo 


deslumbrante


eu não sofri meu amor

esperava - te apenas


tu precisavas de mudar de coração

e de olhar depois de tocares a profundo


zona do ar que o meu peito te entregou

precisavas de sair da água pura como


uma gota erguida por uma onda nocturna

minha noiva tu precisaste de morrer e de nascer


eu esperava - te

não sofri a procurar - te


sabia que virias mas outra como o que adoro da mulher

que não adorava com os teus olhos tuas mãos tua boca


mas com outro coração que amanheceu a meu lado

como se sempre estivesse estado ali para continuar


comigo para sempre


 

a noite na ilha

dormi contigo toda a noite junto ao mar na ilha

era doce e selvagem entre o prazer e o sono entre

o fogo e a água os nossos sonos se uniram talvez

muito tarde no alto ou no fundo em cima como ramos

que um mesmo vento agita em baixo como vermelhas

raìzes que se tocam o teu sono separou - se talvez do meu

e andava à minha procura pelo mar escuro como dantes 

quando ainda não existias quando sem te avistar naveguei

a teu lado e os teus olhos buscavam o que agora pão vinho amor e

 cólera te dou às mãos cheias porque tu ès a taça que esperava os dons


da minha vida dormi contigo toda a noite

enquanto a terra escura gira com os vivos


e os mortos e ao acordar de repente no meio

da sombra o meu braço cingia a tua cintura


nem a noite nem o sono puderam separar - nos

dormi contigo e ao acordar a tua boca saída do sono


trouxe - me o sabor da terra da água do mar das algas

do âmago da tu vida e recebi o teu beijo molhado pela


aurora como se me viesse do mar que nos cerca


 

amigo

tira para ti o que quiseres

passeia o teu olhar pelos

meus recantos e assim

o desejas dou - te a alma

inteira com suas brancas 

avenidas e canções

amigo faz com que na tarde 

se desvaneça este inútil e velho

desejo de vencer

bebe do meu cântaro se tens sede


amigo faz com que na tarde se desvaneça

este desejo de todas as roseira me pertencem


amigo se tens fome come do meu pão


tudo amigo o fiz  para ti tudo isto sem olhares

verás a minha casa vazia tudo isto que sobe pelos


 muros direitos como o meu coração sempre buscando

altura


sorris - te amigo que importa !

ninguém sabe entregar nas mãos


o que se esconde


eu dou - te a alma ânfora de suaves nèctares

e toda eu ta dou menos aquela lembrança


 que na minha herdade vazia aquele amor 

perdido è uma rosa branca que se abre em


silêncio



 

prende o teu coração ao meu

de noite amada prende o teu coração ao meu

e que no sono eles dissipem as trevas como

um duplo tambor combatendo no bosque

contra o espesso muro de folhas molhadas

nocturna travessia negra do sono interceptando


o fio de uvas terrestres com pontualidade 

dum comboio desvairado que sombras


e pedras frias sem cessar arrastasse por isso

amor prende - me o movimento puro à tenacidade


que em teu peito bate com a aste dum cisne submerso

para que as perguntas estreladas do céu responda como 


uma única chave com uma única porta fechada pela sombra
 

Rainha

nomeio - te  rainha

há maiores do que tu maiores

há mais puras do que tu mais puras

há mais belas do que tu mais belas

mas tu ès a rainha

quando andas na rua ninguém te reconhece

ninguém vê a tua coroa de cristal ninguém

olha a passadeira de ouro vermelho que pisas

 quando passas  a passadeira que não existe

e quando surges todos os rios se ouvem


no meu corpo sinos fazem estremecer o céu enchendo - se

o mundo com hino sò tu e eu meu amor o ouvimos
 

antes de amar - te eu nada tinha

vacilei pelas ruas e pelas coisas

nada contava nem tinha nome

o mundo era o ar que guardava

caminhei salões cinzentos

túneis habitados pela lua


hangares cruéis que se despiam

perguntas que teimavam sobre


a areia tudo estava vazio morto e mudo

caído abandonada e abatido


tudo era inaliàvelmente  alheio tudo era

de outros e de ninguém atè que a tua beleza


e a tua pobreza encheram o Outono de presentes
 

sulcas o universo da insònia

como um carrossel de vertigem

ainda que não me queiras estrela

cadente há dias que nos separam

e ficamos ainda mais juntos no amor

em nòs

 

não despertes

oh ... não ... não ... não !

pois que desta vida pequena

que arrasto entre os naturais

dizer que valera a pena

se a grã turba ou branda avena

não dizessem mais e mais
 

que

linda ès de veludo de cetim

lua de marés vale de enseadas

ancorado no cais da madrugada

rios de sonho cor de marfim !

meu amor a máscara dura e o

trompete a soar sem o trompetista

as cadeiras a rangerem sem ninguém !

doce mão de repouso extremo abrigo

de um coração opresso que ao ligeiro

prazer nega no seu seio acesso 
 

sò tu e eu

fazemos da tristeza alegria

 dos elefantes a parirem

na arena os bilhetes para

a vida
 

sem lapso de memória

te chamarei amor te amarei

com o verbo amar em dias

repentinos a voar sò tu ès

eterna em mim neste amor

que tanto desejo !

por ti sem ti neste amor

que sinto por ti os dedos

percorrem as linhas semeando

as palavras e depois seguem

viagem


o tempo sò è válido em ti

a vida a esperança o desespero


a morte sò tu lhe dàs realidade

sò tu ès o fluir !
 

deixe


 que te brade resoluto na visão do que foi

e nos destrói dos teus seios dois cachos

de brancas glicìnias  ou uvas azuladas

pejadas de glória anelantes nos básicos

dos mamilos pérolas aveluadas pétalas

do teu ventre de ninfa que nimba 

eu que tanta dor assisti quando nem mesmo

existia tanto alto sonho nutri que posto a cantar

me ouvi a imensa heresia alegria 


sábado, 9 de julho de 2022

pelos bosques incendiados

o universo vago da ausência

è rito de exorcismo inacabado

por dentro do sonho verde como

se o destino se afirmasse numa

fulgurante nudez de matéria projectada

no rosto indelével da vitória necessário

será o silêncio pelos bosques incendiados

viajo neste lugar incendiado das coisas

cada palavra combate a ignorância das

coisas que hão - de mudar no momento


exacto da partida resoluta sempre toda uma nova

imagem que è inverso ao caminho percorrido

 

todo o nosso amor se encerra

minha moça selvagem tivemos que recuperar o tempo

e caminhar para trás na distância das nossas vidas beijo

a beijo retirando de um lugar que demos sem alegria

descobrindo no outro o caminho secreto que aproxima 

os teus pès dos meus e assim formas a ver na minha boca

a planta insatisfeita estaremos sempre sozinhos estaremos

sempre sozinhos tu e eu sozinhos na terra para começar

a vida e assim beijam a vida os nossos beijos todo o amor

se encerra toda a sede termina em nosso abraço aqui estamos

agora frente a frente encontràmo - nos não perdemos nada


percorre - mo - nos  lábio a lábio mil vezes trocamos entre nòs

a morte e a vida tudo o que trazíamos quais mortas medalhas


atiràmo - lo ao fundo do mar tudo o que aprendemos de nada serviu

começamos de novo morte e vida e aqui sobrevivemos puros como


a pureza que criamos que criámos mais largos que a terra que não pode 

extraviar - nos eternos como o fogo que arderá enquanto durar a vida

 

ao contrário de ti

eu não tenho ciúmes

vem com um  homem

às costas

vem com homens nos teus cabelos

vem com mil homens entre os seios

e os pès

vem com um rio

cheio de afogados

que encontra o mar furioso

a espuma eterna o tempo 


trà - los todos atè onde não te espero

estaremos sempre sozinhos


estaremos sempre sozinhos tu e eu sozinhos

na terra para começar a vida
 

saudade

 

o que será não sei

procurei sabe - lo  em dicionários

antigos e poeirentos e noutros

livros onde não achei o sentido

desta doce palavra de perfil ambíguos

dizem que  azuis são as montanhas como

ela que nela se obscurecem os amores

longínquos e um nobre amigo meu das estrelas

a nomeia num tremor de cabelos e mãos

hoje em Eça de Queirós sem a cuidar a descubro


seu segredo se evade sua doçura me obceca

como uma mariposa de estranho e fino corpo


sempre longe tão longe de minhas redes

tranquilas saudades


ò vizinho sabe o significado desta palavra branca

que se evade como um peixe ?


não e me treme na boca seu tremor delicado ... saudade 


sexta-feira, 8 de julho de 2022

jardim em flor

jardim da impossessão transbordante

de imagens mais enorme em ti se dissolveu

o mundo carregado de amor e solidão a verdura

das árvores ardia
 

num deserto sem água

numa noite sem lua

num país sem nome

ou numa terra nua


por maior que seja o desespero

nenhuma ausência è mais funda


que a tua
 

Quero - te apenas porque a ti eu quero

não te quero senão porque te quero

e de querer - te a não querer - te chego

e de esperar - te quando não te espero

passa o meu coração do frio ao fogo

quero - te apenas porque a ti eu quero

a ti odeio sem fim odiando - te te suplico

e a medida do meu amor viajante è não

ver - te e amar - te como um cego

consumirás talvez a luz de Janeiro

o seu raio cruel 


o meu coração inteiro roubando - me a chave

do sossego


nesta história apenas eu morro e morrerei de amor

porque te quero amor a sangue e fogo


 

tenho fome da tua boca

da tua voz do teu cabelo e ando pelas ruas

sem comer calado não me sustenta o pão

a aurora me desconcerta busco no dia

o som líquido dos teus pès estou faminto

do teu riso saltitante das tuas mãos cor

do furioso celeiro tenho fome da pálida

pedra das tuas unhas quero comer a tua

pele como uma intacta amêndoa quero

comer o raio queimado da tua formosura

o nariz soberbo do rosto altivo


quero comer a sombra fugaz das tuas mãos

e faminto venho e vou farejando o crepúsculo


à tua procura procurando o teu coração ardente

como uma puma na solidão de Quitratue

 
 

tu ès em mim profunda primavera

o sabor da tua boca e a cor da tua pele

boca fruta minha destes dias velozes

diz - me sempre estiveram comigo

por anos e viagens e por luas e sòis

e terra e pranto e chuva e alegria


ou sò agora brotam das raìzes com água

que à terra seca traz germinações de mim


desconhecidas ou aos lábios do cântaro esquecido

na água chega o sabor da terra ?


não sei não mo digas tu não sabes ninguém sabe estas

coisas mas aproximando os meus sentidos todos


da luz da tua pele desapareces fundes - te como o ácido

aroma de um fruto e o calor de um caminho o cheiro


do milho debulhado a madressilva da tarde pura os nomes

da terra poeirenta o infinito perfume da pàtria magnólia


e matagal sangue e farinha galope de de cavalos a lua poeirenta

das aldeias o pão recém - nascido ai tudo o que há na minha boca


volta ao meu coração volta ao meu corpo e volta a ser contigo

a terra que tu ès tu ès em mim profunda primavera volta a saber


em ti como germina



 

basta o teu peito

para a tua liberdade

as minhas asas da minha

boca chegará atè ao céu

o que dormia sobre a tua alma

ès em ti a ilusão de cada dia

 como o orvalho tu chegas 

chegarás às corolas minar


o horizonte com a tua ausência eternamente

em fuga como a onda eu disse que o vento


ia cantando como os pinheiros e como os mastros

como eles tu ès alta e taciturna  e ficas logo triste


como uma viagem acolhedora como um velho

caminho povoando - te ecos vozes nostálgicas


eu acordei e às vezes emigram e fogem pássaros

 que dormiam na tua alma  
 

o tempo

que se demora sem te poder olhar

tocar beijar e abraçar - te

o teu corpo foi  esculpido

desenhado asas a colorir

na tua pele desenho asas

a colorir na tua pele
 

uma brisa

suave e fresca se inebria em mim algo itinerante e sinto - me estranhamente universal num sonho perdido no sonho tenho o passaporte do além ...